quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O mestre da Chapada
















Mil e quatrocentos quilômetros separam a cidade do sol, na esquina do continente, de Lençóis, no interior da Bahia. O método utilizado para encurtar essa distância não foi dos mais prosaicos. Vinte quatro horas de viagem num Monza 1.8, ano 93, 2 pneus furados na estrada, quatro garrafas d’água, algumas barras de cereal, conversa fiada e voilá. Chegamos à Chapada Diamantina. Um parque de diversões do tamanho da Holanda que guarda segredos e abriga figuraças como o nosso guia, Raimundo Reguela, que até hoje, sem menções honrosas, vivia apenas naquela geografia de pedras e saltos esculpidos no vão do espaço. Hoje, sua história, pelo menos um breve fragmento dela, segue contada sob a verve ladoerreana, que mandou para Chapada uma trupe invocada de nobres aventureiros. Com vocês, o menestrel das trilhas, Raimundo Reguela.


Como todo bom baiano, Raimundo Reguela teve preguiça. No caso dele foi preguiça de nascer. Esperou até o último dia no ano para vir ao mundo, mas chegou. Embora pequeno na estatura – não passa de um metro e sessenta – é ‘gigante pela própria natureza’. Criado na mandinga do Candomblé em terreiros da Chapada Diamantina, no interior da Bahia, com quatro décadas de vida nas costas, Reguela é guia nas trilhas que levam a verdadeiros paraísos na terra. Tendo como quintal a imensidão de serras, rios e cachoeiras, a vida conservou feições de menino no homem Reguela. A idade percebida é muito menor do que os quarenta anos que possui. O elixir da juventude é o meio-ambiente e a distancia em que vive da urbe. Vai à “rua” somente para ir atrás de mais trilheiros e receber o dinheiro do aluguel de três casinhas que possui em Lençóis, uma das portas de entrada para a Chapada.


Palmilhando as trilhas a bordo de um par de chinelos Havaianas, Raimundo segue com um quente e dois fervendo. É quase impossível segui-lo de perto. Sabe toda a filosofia do mato e conhece cada palmo dos campos gerais, cerrados, matas e capões. Seus movimentos, a despeito do Chapolin Colorado, são “friamente calculados”. Entre os rios da bacia Paraguaçu, do Jacuípe e do Rio de Contas, Reguela já deu de cara com onças-pintadas e suçuaranas, capivaras, preás e mocós, além de bichos mais sorrateiros, como sucuris e jibóias. O medo não lhe faz companhia. “Tenho o corpo fechado”, afirma com veemência.


Cicerone como poucos, Reguela nos levou para um contato imediato com a soberana Cachoeira da Fumaça. Mesmo com o reinado de maior do Brasil constestado, os 380 metros da queda impõem respeito a quem lhe empresta as vistas. Os caminhos em baixo da Cachoeira envolvem os viajantes em um interminável jardim de bromélias e orquídeas, decorando com criatividade as fissuras rochosas, escorregadias e extremamente perigosas. Sem falar de outras plantas, “medicinais”, na voz de Raimundo, que só visitou um hospital uma única vez na vida, quando perdeu a falange do polegar da mão direita. Os outros percalços que o destino lhe infligiu foram curados com ervas manuseadas pela sua mãe, que também é Mãe de Santo. A propósito, é Reguela quem dá ritmo aos tambores quando tem ritual de Candomblé no mês de setembro.
E por falar em ritmo, o rojão imposto pela guia é pesado! O interessante é que não se vê Raimundo suando uma gota sequer, nem tampouco tomando água. Se abastecia somente nos pontos de apoio, distantes um do outro pelos menos 6 horas de caminhada forte. Taifeiro de mão cheia, Reguela levava toda comida do grupo na mochila – bem maior que ele – e, preparava a bóia nunca esquecendo do tempero baiano. Pimenta.


De volta ao leito úmido de diversos rios, composição de grande parte da complicada trilha, cada passada revelava um novo detalhe. Até mesmo os acidentes de percurso foram verdadeiros aprendizados. Afinal, quase cair em um abismo de 200 metros de profundidade “se não matar, aleija”, diz o ditado. Desprovido de calçado apropriado e afoito como menino pela primeira vez num açude, teve um rapaz que passou direto numa curva e só não ‘se passou’ porque teve o ímpeto de se agarrar ao mato da encosta e também porque este vulgar escriba foi ao seu socorro com a ajuda de Reguela. Detalhe: O cara ia morrendo mas não parou de rir um minuto sequer. É preciso rir da morte. Seria este o ensinamento? No conforto do lar e ao mesmo nível do oceano, o pensamento vagueia por entre as alamedas de pedra e faz da Chapada Diamantina e do Mestre Reguela, lembranças perenes e combustível para novas possibilidades. Epa-hei Oyá!
Fotos: Filipe Mamede (Cachoeira da Fumaça, Morro do Pai Inácio)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Teatro na ribalta




Fotos: Filipe Mamede


Quem vem do bairro das Rocas ou quem desce da Cidade Alta não tem outro jeito, senão contemplar o secular Teatro Alberto Maranhão, monumento tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico do Rio Grande do Norte. Inaugurado um ano antes da chegada das luzes de acetileno que iluminariam as ruas do bairro da Ribeira em 1905, o teatro teve outro nome de batismo. De 1904 a 1957, o teatro levava o nome do maestro e compositor de O Guarani, Carlos Gomes.

A concepção do teatro conserva, até hoje, linhas e elementos da arquitetura francesa do final do século XIX, além de cerâmica belga como revestimento do piso de entrada e da platéia. Obedecendo a planta do engenheiro José de Berredo, no Governo Ferreira Chaves, sob a direção do Major Theodósio Paiva, a construção teve início em 1898, e se deu simultaneamente a outros no Brasil: o Teatro Amazonas em Manaus é de 1896; o Teatro Municipal do Rio de Janeiro foi inaugurado em 1909; o Teatro José Alencar, em Fortaleza, iniciou as atividades em 1910; e o Teatro Municipal de São Paulo começou a funcionar no ano seguinte. Eles assumiam a função de vitrine cosmopolita para as novas elites.

Em 1910, o Carlos Gomes, como era chamado àquela época, guardava a forma de chalé, com 18,30 metros de largura por 78,60 de extensão, tendo três portas e uma escultura de Mathurin Moreau, denominada “arte”, encimando a fachada. No segundo Governo de Alberto Maranhão, o Teatro passou por uma nova reforma, sendo alvo de críticas por parte do jornal Diário de Natal, que apontava a falta de sensibilidade dos governantes, afirmando que o governador só tinha olhos para a sua grande obra, o teatro, consumindo nele, recursos desmedidos, enquanto os flagelados padeciam as misérias da seca, que se prolongava desde 1902.

Mesmo criticado, a casa de espetáculos acabou ganhando um pavimento superior, portões e grades de ferro vindas da França (Fundição Val de Osnes), assim como os balcões e obras de arte na fachada. A Gran-Campañia Española de Zarzuela, Opera y Opereta Pablo López reinaugurou o teatro no dia 19 de julho de 1912 com a opereta “Princesa dos dólares” de Leo Fall. Em 1957, sendo o Teatro da municipalidade, o Prefeito de Natal, Djalma Maranhão, mudou a sua denominação para Teatro Alberto Maranhão – TAM.

Sobre a mudança de nome, o teatrólogo Meira Pires, diretor do TAM de 1952 a 1982, ano de sua morte, disse o seguinte: “Alberto Maranhão não podia permanecer relegado a um esquecimento total. Esse o motivo da batalha gloriosa para dar seu nome à casa de artes que ele construiu, movimentou e amou como um novo Romeu”. Em 1955, o teatro, ainda com o nome de Carlos Gomes, foi palco do 1º Festival de Teatro Amador, “certame idealizado pelo teatrólogo Meira Pires, comemorativo à reabertura do teatro e do qual participaram os Estados da Bahia, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará”. Poucos anos depois, Meira Pires, de 10 a 20 de outubro de 1958, realizou o 1º Congresso Brasileiro de Teatro Amador. Na ocasião foi fundada a Sociedade Nacional do Teatro Amador – SONATA, sob o patrocínio do Ministro da Educação e Cultura Clóvis Salgado e do Governador Dinarte Mariz de Medeiros.

Em 1959, ainda no governo de Dinarte Mariz, o teatro foi reformado integralmente, com obras do engenheiro Wilson de Oliveira Miranda, sendo reaberto em 24 de março de 1960. No dia 11 de março de 1977, a Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte estreou no palco do TAM, bem como o sistema de ar condicionado central. Pouco mais de uma década depois, a Fundação José Augusto, presidida pelo jornalista Woden Madruga, iniciou, em junho de 1988, uma nova reforma contando com o apoio da Fundação Nacional de Artes Cênicas e a Fundação Banco do Brasil. Nesse reparo foram incluídos camarins, salão nobre, jardim, platéia e palco, buscando restaurá-lo sob supervisão técnica da Coordenadoria do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado.

Em 2004, por ocasião do centenário do Teatro Alberto Maranhão, uma nova reforma foi realizada. Esta obra deu ao TAM uma melhor acessibilidade, já que foram construídas rampas da rua para a praça, da praça para o Teatro e também nas entradas dos banheiros. Além disso, um moderno sistema de climatização foi implantado, sendo instalados condicionadores de ar nas platéias, salas administrativas e salão nobre. Também foi feita uma nova pintura no teatro e restaurados a iluminação, o piso, o mosaico e o mobiliário original. O pátio interno foi ampliado e seu piso trocado. O prédio ganhou um novo café, loja e banheiros. O salão nobre e hall de entrada foram revitalizados e toda infra-estrutura do teatro foi restaurada. Para Hilneth Correia, atual diretora do Teatro Alberto Maranhão, “os sons, as letras, as cores, os movimentos, e os gestos, são presenças vivas nessa casa”.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Luz, câmera e ação comunitária. Uma história chamada Cinema-Processo







Fotos: Alexandre Santos



Há um cinema diferente por aí. Um cinema que não depende de estúdios, nem de muito dinheiro para acontecer, mas que não chega a ser feito de uma maneira espartana. O cinema-processo - como é chamado pelos seus idealizadores - reside na filosofia do “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Mais que isso, é um movimento de cinema livre, onde tudo pode mudar e se adaptar. Onde as coisas estão em constante ebulição. Em outras palavras, cinema-processo é uma equipe de cinema realizando um filme com os recursos que encontram no local, sejam financeiros, humanos ou até mesmo um simples copo d´água para saciar a sede.

Nascido da cabeça do cineasta potiguar Buca Dantas em parceria do roteirista Geraldo Cavalcanti e da necessidade de se criar algo novo, diferente, o cinema-processo é uma metodologia de trabalho que pressupõe outras metodologias, como a economia solidária e o protagonismo local. “É o compromisso de contar histórias com as pessoas dos lugares, com os saberes dessas pessoas, é a gente juntar o nosso saber técnico com o saber lúdico dessas pessoas, convidá-las a se tornarem atores de si mesmo”, simplifica Buca Dantas. Com esse idealismo, Buca realizou o primeiro filme sob o signo do Cinema-Processo em 2006, quando ele e sua trupe se mudaram de mala e cuia para o “interior do interior” do Rio Grande do Norte.

“Quando chegávamos às comunidades, a primeira reação era de estranheza”, rememora. Falar de cinema num lugar onde a maioria das pessoas sequer pisou numa sala de exibição não é tarefa fácil. “Nós tivemos que convencer as pessoas de que aquela proposta era verossímil, e sem ter nada que provasse que ali seria realizado um filme, já imaginou?”. Quebrado o gelo inicial, a adoção dos moradores de Bom Sucesso, uma das comunidades escolhidas para a realização do filme, foi total. “A princípio não tínhamos roteiro, tínhamos um personagem apenas. Reunimos a comunidade e explicamos como era a personagem, e perguntamos o que eles fariam se alguém daquele jeito chegasse ali”, explica a atriz Quitéria Kelly, protagonista do filme Viva o cinema brasileiro!, obra inaugural do Cinema-Processo.

A partir daí se deu a construção da narrativa. A personagem de Quitéria foi sendo redefinida in loco com a concepção das pessoas, além das outras tramas da história. “Depois dessa tempestade de idéias, Geraldo (Geraldo Cavalcanti, roteirista) reunia essas sugestões e criava um fio narrativo. Esse texto era repassado para a equipe, que criava na hora”. Não só verdadeiros roteiristas, os moradores também atuam nos filmes. Durante as filmagens cada um teve meia-hora para ir em casa buscar o seu próprio “figurino”. “Nós fizemos oficinas para ensinar para eles noções básicas de como não olhar para câmera, improviso, alguns exercícios teatrais para relaxamento, e a gente ia gravar no mesmo dia. A cidade parava. Todo mundo ajudava”, explica a atriz.

QUANDO A PERSONAGEM VIRA PADROEIRA

Numa época de seca intensa e de temperatura elevada, a equipe percorreu três comunidades da região do semi-árido do Rio Grande do Norte: Serra da Tapuia, Barro Preto e Bom Sucesso, onde foi gravada a maior parte do filme. Com cerca de 800 habitantes, Bom Sucesso é um distrito da cidade de Santa Cruz, onde, obviamente, não tem cinema e o lazer se resume em colocar as cadeiras para fora de casa e bater papo com a vizinhança.

Quando a trupe cinematográfica aportou por lá, a comunidade não via chuva há pelo menos nove meses. Com a chegada da curiosa equipe de cinema, o imaginário do povo foi mais além. “O sertanejo é desconfiado por natureza. Mas, no momento em que se estabelece uma empatia, aí a casa dele passa a ser a sua”, explica Buca Dantas, dizendo que não demorou muito para os moradores ficarem arrebatados pela sétima arte. “A padroeira do lugarejo que até então não existia, acabou sendo Santa Luzia, em homenagem à personagem que nós tínhamos levado, uma certa Luzia recém chegada da Europa, filha de coronel que precisava se casar”, explica o cineasta. “As pessoas passaram a associar a chegada da gente como um sinal de que a chuva ia chegar, que algo iria mudar por ali”, revela a atriz Quitéria Kelly.


O SEGUNDO FILME

O segundo filme feito sob a alcunha do Cinema-Processo – Perdição – gravado na cidade de Janduís, no médio-oeste potiguar, já foi diferente, se aproximou mais do cinema clássico. Teve roteiro, preparação de atores, planejamento prévio, mas sem deixar de lado as marcas costumeiras na linguagem pensada por Buca e Geraldo. “Tinha uma flexibilidade ampla que permitiu mudanças de última hora e criação ao vivo. Uma cena podia ser modificada na fotografia, no jogo dos atores, sem interferir na continuidade do roteiro, além de contar com atores e técnicos locais”, explica Matyeu Duvignaud, diretor de fotografia dos filmes-processo. “Em resumo, Perdição conta a história de amor entre uma mulher casada com um mochileiro. Ela é casada com um homem simples, tem um filho com o mochileiro argentino que vai embora e só aparece quinze anos depois. É um filme sobre mudança, sobre a decisão de permanecer ou ficar, violência, disse-me-disse, temas esses que são universais”, define.

Durante as gravações, além das surpresas que a linguagem pressupõe, aconteceu o inusitado. Um dos atores principais partiu dessa para a melhor. “Um ator morreu no meio das filmagens. Não tínhamos terminado as cenas com ele, e nós precisamos mudar a história”. Embora trágico, Geraldo Cavalcanti revela que readequar o roteiro foi menos doloroso do que no primeiro filme-processo. “A história se passava em três períodos diferentes e o ator já tinha gravado os dois primeiros momentos, de modo que só tivemos que mexer na terceira parte. Mas mesmo assim foi um nó. O irônico nisso tudo é que o personagem também morria na terceira parte”, aponta o roteirista. “Eu filmei o enterro do Dedé Capoeira, que era um ator de Janduís, e usei no filme. Ele merece essa homenagem. Nessa variável, está a riqueza do cinema que a gente criou, por que nós podemos nos adaptar a qualquer situação”, explica Buca Dantas.

Com pouco mais de cinco mil habitantes, Janduís, distante 286 quilômetros da capital do Rio Grande do Norte, é um lugarejo onde o badalar do sino da igreja pode ser ouvido em qualquer ponto da cidade, mas que já vem sofrendo alterações em decorrência do mundo globalizado. “Em Janduís, quase todos os dias víamos vaqueiros aboiando usando moto e buzina no lugar do cavalo e o gogó”, relata o cineasta. De todo modo, foi pra lá que a equipe de cinema tomou destino. “Ficamos quase um ano por lá, vivendo do que a cidade nos oferecia, sem cachê, sem nada”, conclui Matyeu. A escolha de Janduís como palco para o segundo filme-processo não foi por acaso. O filme Perdição é uma livre-adaptação de uma peça chamada O fuxiqueiro, escrita por Lindenberg Bezerra, natural do município. “Decidimos fazer em Janduís pela identidade político-cultural que tenho com os artistas da Companhia Cultural Ciranduís, da qual Lindenberg faz parte, e por essa cidade ser quase um emblema do que seja o sertão”, explica Buca.


FRONTEIRAS CINEMATOGRÁFICAS

O cinema-processo não é um cinema endêmico, representante apenas da estética sertaneja e das temáticas que ela pressupõe, como o estereótipo da seca. É, sobretudo, um cinema universal, embora seja feito de forma mais experimental e muitas vezes com pouco ou nenhum recurso. “Surge a ideia do filme, surgem as necessidades e nós vamos buscar os parceiros que possam suprí-las, mas, já fazendo o filme, eis a grande diferença. Evidente que não se possa prescindir de sua existência (do dinheiro), mas de minimizar ao máximo a sua ingerência na decisão de se realizar um filme. Nós não buscamos a arte naif no cinema. Não é isso. É uma abordagem livre, mas que não significa que nós vamos fazer de qualquer jeito”, defende o cineasta.

“Para mim, uma das grandes sacadas do movimento reside na constatação de que, apesar de separados geograficamente e desamparados politicamente, os dramas dos habitantes das regiões mais isoladas e escondidas do nosso Estado são iguais aos dos habitantes de Manhattam ou Copacabana. A comprovação de que estamos ligados pelos mesmos conflitos”, explica o roteirista Geraldo Cavalcanti.

Bebendo da fonte do Cinema Novo, do Cinema-Verdade e do Neo-realismo, o Cinema-Processo pretende romper as fronteiras das terras potiguares e realizar filmes com temáticas urbanas, desde que se respeitem às tradições locais, as histórias que as pessoas têm para contar nos lugares onde esse cinema pode aportar. “O nosso objetivo é esse. Realizar cinema em qualquer lugar do mundo, em lugares que possam ter, inclusive, condições menos favorecidas do que a nossa. A ideia é dar voz à massa para cantar em coro esse samba, como na música de Seu Jorge”, traduz Buca Dantas. Para Geraldo Cavalcanti, o grande mérito do Cinema Processo é oportunizar às pessoas a contarem suas próprias histórias e vivenciá-las na tela. “Elas acabam contribuindo para a “ressignificação” da sua existência, para a sua reafirmação. É muito emocionante vê-las reviverem suas crenças”, define.

Cineastas e peregrinos, o Cinema-Processo deve mudar o português pela língua francesa por algum tempo. Convidados para participar do 12º Cinéluso Nantes, festival de cinema que acontece anualmente em Nantes, França, debatendo e provocando intercâmbios de produções cinematográficas de países de língua portuguesa, a trupe processual desembarca no mês de junho no país origem de Matyeu, o diretor de fotografia. Além de produzir micro-documentários, 20 ao todo, eles devem realizar um longa-metragem dentro da filosofia do Cinema-Processo. “O roteiro já está concluído. A ideia é abordar aspectos de pessoas que nasceram em outros países e, por motivos dos mais diversos, foram parar na França. Vamos contar as histórias que eles quiserem contar. Essa é a linguagem do Cinema Processo’’, reforça o cineasta.

Para Matyeu Duvignaud, a viagem de volta à França terá um sabor especial. Natural de La Rochelle, cidade onde será realizado o longa, ele confessa que está um pouco apreensivo com a visita ao seu país e, sobretudo, sobre o fato de produzir um filme em sua cidade natal. “Estou com medo e felicidade, claro. Mas estou com medo de achar um país sofrendo da crise. Não temos noção aqui no Brasil, mais essa crise é barra na Europa. As pessoas estão perdendo os empregos, eles estão numa luta grande. É disso que tenho medo, não achar um povo aberto como ele pode ser para as coisas novas, mas um povo com medo”, revela. “Filmar em La Rochelle, vai ser minha homenagem para o meu pai (o antropólogo francês Jean Duvignaud, falecido em 2007), ele sempre quiz que eu me aproximasse do cinema, ele tinha uma paixão por essa arte”. Enquanto isso, o clichê cunhado por Glauber Rocha ainda é atual: uma câmara na mão e uma idéia na cabeça. Eis o processo.

BUCA DANTAS - Um cabra da peste metido a moviemaker

Nascido há 38 anos na cidade de Currais Novos, interior do Rio Grande do Norte, Buca Dantas, nas horas vagas atende pelo nome de José Alberto Dantas. Caroneiro desde a adolescência, foi fundador da Ong de comunicação popular TV Garrancho, atuando no interior do nordeste entre 1990 e 1997, ano em que ingressou no curso de jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Sempre muito próximo do mundo televisivo e cinematográfico, Buca foi diretor e produtor do projeto Brasil Total, na rede Globo, de 2002 a 2004. Além disso, é consultor free lancer do Canal Futura desde 2005. Com o filme-documentário “Fabião das Queimadas – Poeta da liberdade”, produzido para o DOCTV/TV Cultura, em 2004, foi ganhador do 1° Festival de Cinema e Sertão do Ceará, em 2005, e foi convidado para participar do VI IMACOM, no mesmo ano, em Cuba.

Em sua bagagem audiovisual traz A Feira (1999), A estrada (2000), A força (2001), Viva o cinema brasileiro! (2006) e Perdição (2009), ainda inédito. Telas, cenários, roteiros e novas possibilidades. Sem disposto a realizar e a levar cinema, seja aos rincões do sertão brasileiro, ou seja, à Champs-Elysées, na França, Buca Dantas segue sua vida como se estivesse num verdadeiro road movie.

terça-feira, 14 de abril de 2009

PAUTA DO DIA: RONDA POLICIAL



Imagens: Ana Amaral


Fazer ronda policial é sempre um exercício interessante. Além de se deparar com toda sorte de vigarice, a ronda dá origem a um texto mais liberto quanto sua escrita, já que o fato policialesco abre espaço para narrativas mais dotadas de ação e por quê não dizer, emoção. Dito isso, vamos ao ocorrido.
No bairro da Cidade Alta, a mulher do dono de uma remanufaturadora de cartuchos, enquanto tinha a loja assaltada por dois ladrões, ligou primeiro para o marido para avisar do infortúnio, ao invés da polícia. Não deu outra. Pensando se tratar de simplórios trombadinhas, o dono da loja foi voando para o seu estabelecimento, espulsar ele mesmo os larápios que surrupiavam seu negócio.

Revólver na cara, "entra no carro e dirige fela da puta", foi o que ele ouviu. Descendo em direção à velha Ribeira, ainda deu carona para mais um bandido. Num dado cruzamento começa a troca de tiros. Bang! bang! bang! O dono do carro salta do veículo ainda em movimento e os ladrões fazem a permuta do Uno do dono da loja por um Chevette, e seguem destino rumo ao bairro das Rocas, lugar de gente humilde, mas que abriga uma grande leva de vagabundos e outros tipos perigosos à sociedade pequeno-burguesa.

Do Chevette, os três comparsas tentaram trocar de carro mais vez, mas só um deles conseguiu, fazendo de refém dessa vez um funcionário público no seu Gol, com algumas prestações a vencer. Enquanto dois tomaram rumo a pé, o que roubou o Gol fez o homem dirigir por pouco tempo. A polícia já fazia o cerco e não contou conversa. Alvejou o carro com ladrão, com refém, com tudo dentro. O motorista pediu a Deus e teve sorte. Nenhum arranhão. O bandido levou dois balaços no peito esquerdo e foi internado, mas já teve alta e seguiu pra delegacia de plantão, que vez por outra vem sendo palco de fulgas e outros procedimentos mais obtusos.

O funcionário público disse que estava na rua conversando com um amigo quando tudo aconteceu. Devia estar trabalhando na repartição... O dono da loja nunca mais dará uma de super-herói, espero... Dois dos bandidos continuam foragidos.... A coisa só ficou preta pra um deles, um moleque de 20 anos de idade, morador do bairro de Mãe Luiza, um lugar cercado por verde e bem pertinho do mar, mas que de santo não tem nada. Vida que segue.

sábado, 21 de março de 2009

Pés no chão e a verve do pensador.







Imagens: Frankie Marcone

Essa semana recebi uma pauta religiosa. Percorrer a procissão em nome de São José, no bairro homônimo, e tentar encontrar ali algum drama, alguém andando com os pés descalços, algum ser temente a Deus rogando para os Céus pedindo por alguma luz no fim do túnel. “Encontre alguma história humana”, pedia a pauta.

“História humana?” - indaguei. Com meu rápido questionamento veio junto uma catadupa de pensamentos filosóficos, lembrei de cara de Niezstche. “Onde vós vedes coisas ideais, eu vejo – coisas humanas, ah, coisas demasiado humanas!”. Eu também vejo humanidade em tudo ao meu redor. Na procissão não foi diferente. Encontrei humanidade na senhorinha octogenária dizendo que São José tinha lhe curado a forte gripe. Depois me deparei com um senhor de nome Calixto, com uma fala difícil, confusa, mas entendi que os seus pés pisavam direto no chão por causa de sua filha, envolvida amorosamente com um marginal. Coisas da vida.

Percorrendo as ruas do bairro junto com seus moradores, (além de ficar absolutamente suado) percebi a simplicidade das casas, das pessoas em si, da fé inabalável e irredutível. Estavam todos com um pé além da vida. Fosse pela idade já avançada da maioria, ou muito mais pela aparente sinceridade que demonstravam em louvação ao Santo, tido pela igreja como patrono da família, já que São José ficou na incumbência de ser o pai adotivo de Jesus Cristo.
"Deus", "imortalidade", "salvação", "além" - para o pensador estes são conceitos com os quais não necessitamos demandar tempo. Enquanto ele vê Deus como uma resposta esbofeteada, os moradores do bairro de São José andam com os pés no chão...

domingo, 1 de março de 2009

SEM PALAVRAS...




Fotos: Filipe Mamede

"Quem não vê bem uma palavra, não pode ver bem uma alma", dizia Fernando Pessoa. E, se ainda é difícil perceber as aparições, pelo menos que se tente perceber as palavras, ora, pois. Uma boa dica para tal intento é o Museu da Língua, na Estação da Luz, um lugar com capacidade de levar as pessoas a outras paragens literalmente, seja física ou culturalmente falando. Ao entrar no Museu, o visitante já se depara com uma tela de 106 metros - toda a extensão da Estação da Luz - onde é retratada a riqueza e a diversidade da língua portuguesa. Uma língua em constante movimento.
A cada passo em frente ao gigantesco painel, uma nova porta se abre mostrando um recorte do que temos de mais original: a língua no cotidiano. Seja no futebol, nos carnavais, na culinária, nas relações humanas, nas festas, na natureza, nas religiões, e nas danças. Como dizia o também poeta e antropólogo baiano, Antonio Risério, “nossa matéria-prima é a palavra. A palavra como som, como sentido, como prática, como senha, como signo cultural distintivo, como argamassa cultural, como história, como objeto, como entidade mutante e mutável”.
Além da tela superlativa, as paredes do Museu contam a história da língua portuguesa, dos primórdios até hoje em dia. O choque do europeu com o índio, as imigrações, o rádio, a TV, o americanismo, chegando à internet. Outro espaço é o Beco das palavras, onde qualquer pessoa pode não só brincar com a origem das palavras, mas também observar as suas formações em raízes radicais, prefixos e sufixos. Juntando com as mãos os pedacinhos que flutuam numa mesa sensível ao toque, o jogador descobre de onde a palavra veio e por onde ela caminhou até chegar à língua portuguesa.

Mas, muito mais do que aplicar as tecnologias ao espaço expositivo por puro deleite de modernidade, o Museu da Língua Portuguesa adota tal museografia a partir de um dado muito simples: seu acervo, nosso idioma, é um “patrimônio imaterial”, logo não pode ser guardado em uma redoma de vidro e, assim, exposto ao público. Unindo lazer, tecnologia e conhecimento de forma interativa, o Museu da Língua Portuguesa corrobora, através de sua existência, com o poeta Fernando Pessoa quando demonstra que nossa pátria é a nossa língua.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O SIGNO DA CIDADE







1 - Espelho antenado.
2 - O que sobrou da selva na selva de pedra.
3 - Uma rua cheia de tapetes?
4 - O caminho da luz.



Ao mesmo tempo ruína e eldorado, a cidade de São Paulo vai seguindo seu caminho como um verdadeiro catalizador de existências. Um ponto de convergência de tipos variados, sejam nacionais ou importados. Eu, como um verdadeiro cidadão híbrido, com um pé no cosmopolismo da cidade grande e, com o outro bem fincado nos bucólicos compassos flutuantes do sertão, sigo também o meu caminho, amando esta cidade, como quem ama um irmão transviado. Ou seja, minimizando, sobretudo, os defeitos, as ranhuras existentes.


Na cidade que é mais concreto do que qualquer outra coisa, vou buscando o qualquer outra coisa quando saio todos os dias pelas ruas munido com a minha singela câmera digital, um modelo hoje jurássico – com 5.0 mega pixels – mas que não me deixa na mão, me garantindo, pelo menos, o básico da composição fotográfica. Mas qual é o signo da cidade? O trânsito hiperbólico? A correria do tati-bitate contemporâneo? A torcida do Corinthians? O chop e os três pastéis? O cinza diário do firmamento? A indiferença aos espaços da metrópole? Talvez todas as alternativas sejam corretas, enfim. Minha proposta, então, é revisitar os “lugares-comuns”, desprovido das vendas que impedem uma apreciação mais sensível, ou melhor, fotossensível, digamos.