terça-feira, 23 de dezembro de 2008

QUANDO O CHORO SAI DO BURACO
















O chorinho dominando as ruas da Ribeira. (Fotos: Elisa Elsie)






“Minha filha, você canta um jazzinho? Ou um fox-trotzinho? Ou um tanguinho? Então por que há de cantar um sambinha? Use o nome correto: samba!”. Esta é uma bronca famosa de Ary Barroso em uma das calouras de seu programa de rádio quando ela disse que iria cantar um "sambinha". O engraçado é que a música apresentada depois foi nada menos do que Aquarela do Brasil, a mais famosa música do próprio Ary. Este pode ser o motivo pelo qual alguns músicos se referem ao estilo pelo nome Choro, e não pelo diminutivo Chorinho...
Nomenclaturas à parte, a verdade é que Choro parece ser mais respeitável, ajudando a dar o merecido reconhecimento a um dos mais criativos e sofisticados estilos musicais brasileiro. Com mais de 130 anos de idade, hoje, o Choro se reinventa na Cidade do Sol. Caracterizado pelo improviso e pela verve de quem toca, o ritmo executado pelas ruas da Ribeira não faria vergonha de jeito maneira à Joaquim Calado – considerado o pai do gênero - ou à Pixinguinha, um dos mais conhecidos chorões de que se tem notícia, porque benza Deus! O que os caras do Catita Choro & Gafieira tocam, não é brincadeira.

Com o solista, que pode ser uma flauta ou algum outro instrumento de sopro, o bandolim, o cavaquinho, que faz uma espécie de elo entre a percussão e a harmonia, o pandeiro mantendo a marcação e o violão de sete cordas delineando a melodia, o grupo do Catita tem arrastado pequenas multidões até a Rua Câmara Cascudo, berço do grande mestre, da terça-feira em diante, desde o dia 23 de abril, que foi quando o espaço foi oficialmente inaugurado. Mas antes de fazer parte do cenário boêmio do velho bairro, a roda de Choro se fazia presente em outras cercanias.

A origem do Buraco

A gênese do Buraco da Catita, espaço cultural organizado pelo grupo musical Catita Choro & Gafieira, remonta aos ‘Becos da Lama’ da vida, quando o pessoal ainda não tinha nome e se reunia informalmente em benefício da melodia. “A gente ia lá pro Beco do Lama no Bar de Nazaré, toda tarde, na sexta-feira, pra ouvir música. Cada um levava um CD e ficava por ali ouvindo”, relembra Ronaldo Freire, flautista do grupo. Além de ouvir, o grupo se juntava para aprender, já que Camilo Lemos tinha acabado de adquirir um violão e precisava conhecer o novo instrumento. “A gente foi à Dácio Galvão propor um projeto. Era o Chorando na Feira. A idéia era tocar Choro nas feiras livres: Alecrim, Carrasco, Rocas e tal... tudo isso pra comprar o violão”, revela o próprio Camilo.

Com o instrumento em mãos, as esquinas do Beco da Lama não foram mais as mesmas por algum tempo. A reunião sonora que, começou com o único intuito de estudar música, cresceu em progressão geométrica. O grupo começou tímido, sem uma formação fixa. Depois foi tomando corpo e reunindo adeptos. “Nós começamos a nos reunir eu, o Camilo, o Marcelo Tinoco, que é um cara que participa desde o começo, o Carlança, que é um músico daqui de Natal que freqüentava o Beco da Lama. E aí, pra tocar pandeiro, aparecia um, aparecia outro. Era desse jeito”, recorda Ronaldo Freire. No final do mês – Camilo conta risonho – “o pessoal já tava dizendo: e aí, vocês não vão tocar não?”.

Camilo relata que o espaço passou a abrigar uma verdadeira miscelânea de tipos. “Era guardador de carro, médico... uma mistura da porra. Talvez fosse ali, o local mais democrático. A gente percebeu que Natal tava carente de alguma coisa desse tipo”. Inicialmente acontecendo no Bar de Nazaré, a roda de Choro, mesmo aumentando de tamanho e movimentado o pequeno logradouro, acabou sendo despatriada. Dona Nazaré, proprietária do Bar, reclamou e eles tiveram que meter a viola e demais instrumentos na sacola. O flautista do grupo, Ronaldo Freire, analisa: “Nós tivemos esse problema logístico lá e o jeito foi se transferir pra outro lugar, e depois pra outro. Aí foi quando o Camilo descobriu um espaço e teve a idéia de fazer um centro de cultura e é claro, trazer o Chorinho”.

Cortando as fitas do Buraco

Rua Câmara Cascudo, Ribeira. Mudança feita, o grupo começaria tudo de novo. Se reunir e tocar Choro sem grandes pretensões. Com metralha espalhada pelo pequeno ambiente recém alugado, sem energia elétrica no local e crentes que tocariam apenas para eles, o vizinho da frente – Seu Raimundo - foi quem fez a contagem: “130 pessoas” - que apareceram numa ocasião anterior à abertura. Inaugurado no aniversário do mestre Pixinguinha, no Dia do Chorinho e aos cuidados do grupo de músicos, a cidade ganhou mais um reduto de boemia e, sobretudo, de boa música – O Buraco da Catita.
Mesmo com um nome que soa estranho aos ouvidos incautos, o harmonioso recinto foi criado com um objetivo muito nobre: celebrar o Choro e aglutinar músicos de todas as vertentes. “Eu pensei primeiro em Primas e Bordões, que é um disco de Choro de Jacó do Bandolim. Além disso, primas e bordões são cordas, não caracteriza nenhum estilo, mas disseram que era muito refinado”, explica Camilo. “O Buraco da Catita é o seguinte: Tem um compositor de Choro aqui no Rio Grande do Norte chamado K-ximbinho, que teve grande projeção nacional. Catita é uma composição dele. Nossa tendência como um grupo de Choro do Estado era homenagear alguém daqui. Á princípio, o nome ia ser Toca da Catita. Mas como quem vive em toca é raposa e, catita vive em buraco, aí ficou o nome Buraco da Catita, que é impactante na primeira vez que escuta, mas depois o sujeito se acostuma”, complementa o flautista Ronaldo.

Uma boemia bem musicada

Rua fechada. Os carros não passam. Vendedores ambulantes tiram o seu trocado vendendo cerveja. Mesas lotadas, burburinho, salvas de palmas constantes e centenas de ouvidos sintonizados na melodia contagiante do Choro. Esse cenário criado pelo grupo do Buraco da Catita mais uma vez e em muito pouco tempo, tem atraído de boêmios à professores universitários, além de um público jovem que não marcava presença no Beco da Lama. “Você não vem só pela boemia em si, mas sim pela música. Essa é uma das características da roda de choro. Uma música instrumental que é extremamente popular, diferente de outros gêneros instrumentais que, em geral, ficam restritos a certa intelectualidade musical”.

Sobre o fato de estarem atualmente situados na Ribeira, um antigo bairro da cidade, Camilo é saudosista: “Olha esses casarios aqui... ainda existe uma aura. É um lugar belíssimo, que ainda respira poesia”. O músico explica ainda, a razão de ser do Buraco da Catita. “Isso não é bar, e nunca vai ser bar. É um espaço pra gente tocar e agregar arte, um espaço realizador... E que se toque música com esse espírito... Sem mecenato”. Sinestésico, Camilo sentencia: “Ainda existem sonhadores”.


Olhares sobre o Buraco

Hoje com endereço fixo e com um público que já pode ser considerado fiel, o grupo, que se reunia despretensiosamente, tem o costume de receber amigos para aumentarem a roda do Choro. Um que sempre passeia com sua flauta em mãos pelo Buraco da Catita é o músico Carlos Zens. “Eu acho maravilhoso. Estão tornando o Choro mais público, mais próximo do povo. Ao mesmo tempo, o Choro exige muito do músico, que tem que pesquisar intérpretes e novos compositores. É uma música fundamental”.
Outro que tem entrado constantemente no compasso do Choro é o infant terrible Diogo Guanabara. O jovem músico tem sido figurinha fácil no festivo e sonoro ambiente da Rua Câmara Cascudo. “Antigamente tocavam chorinho lá em Rochinha dos Pneus, no Café Nice no centro, mas era freqüentado por um pessoal mais antigo. Aqui em Natal, as pessoas despertaram e decidiram olhar para o que a gente tem de bom. O pessoal está produzindo um movimento original, tem sido o programa de sexta-feira à noite... é uma forma das pessoas se aproximarem da nossa cultura brasileira”.

Estilo e pessoas

O chamado "regional", composto por dois ou três violões, cavaquinho, pandeiro e um solista, sendo pau pra toda obra, é a maneira como o pessoal do Catita se organiza. O grupo, vez por outra, nem precisa de arranjo escrito e acompanha até o que não conhece. “O interessante é que, tecnicamente, o Choro é uma música bem avançada, no sentido harmônico e no sentido melódico dela. E tem uma coisa que é a improvisação... Tem uns chorões que gostam de fazer pequenas variações em cima de determinado tema... é uma música muito flexível”, analisa Ronaldo. Para Camilo, o Choro “é uma música aparentemente ingênua, mas é altamente complexa, poli-ritmica, contra-pontista, deixa a alma alegre”.

Formado por Camilo Lemos fazendo a permuta entre e o violão e a guitarra, Zé Fontes dedilhando o contrabaixo, Marcelo Tinoco incendiando o Bandolim, John Fidja sentando o pau na bateria, Gilberto Cabral na cadência do trombone, Enéas Albuquerque distribuindo simpatia com o Clarinete, Neemias Lopes na introspecção do saxofone, Antônio Carlos no trompete e Ronaldo Freire fazendo solos desconcertantes com sua flauta, o Catita Choro & Gafieira acaba sendo um verdadeiro hino à diversidade. O grupo é composto de músicos de formação clássica e outros com raízes populares. “Tem o Enéas, que a gente chama de “lorde”, que toca em orquestra sinfônica... tem o Antonio Carlos que já tocou nas melhores orquestras da Europa. Gilbertão – maestro de Choro e Frevo... de formação erudita, tem Neemias, é uma mistura... Alguns são músicos de orquestra e alguns são da noite”, finaliza Camilo Lemos.
Quando pergunto sobre a expectativa de Camilo sobre o Buraco da Catita, ele demora um pouco a responder. Com um hiato de uns 30 segundos ou mais depois da indagação feita, o músico escolheu da melhor maneira as palavras que queria dizer e disse: “Espero que esse centro cultural seja um grande catalisador... que entre para o coração da cidade... que seja uma flor na lapela, que seja uma pérola... que se mantenha puro”.

O Choro
O choro pode ser considerado como a primeira música urbana tipicamente brasileira. Os primeiros conjuntos do gênero surgiram por volta de 1880, no Rio de Janeiro - antiga capital do Brasil. Nascidos nas biroscas do bairro Cidade Nova e nos quintais dos subúrbios cariocas, esses grupos eram formados por músicos, muitos deles funcionários da Alfândega, dos Correios e Telégrafos, da Estrada de Ferro Central do Brasil, que se reuniam nos subúrbios cariocas ou nas residências do bairro da Cidade Nova, onde muitos moravam.

O nome Choro veio do caráter sentimental e literalmente choroso da música que esses pequenos conjuntos faziam. A composição instrumental desses primeiros grupos de chorões girava em torno de um trio formado por flauta, instrumento que fazia os solos, violão, acompanhando como se fosse um contrabaixo - os músicos da época chamavam esse acompanhamento grave de “baixaria”, e cavaquinho, que fazia o cortejo mais harmônico, com acordes e variações.

K-ximbinho

K-ximbinho, nas horas vagas, atendia pelo nome de Sebastião Barros. Nascido em Taipu, interior do Rio Grande do Norte, no ano de 1917, mudou-se para capital, onde entrou em um conjunto de jazz. Em 1938 passou a integrar a Orquestra Tabajara de Severino Araújo, e quatro anos mais tarde foi em busca do Rio de Janeiro, se desligando da orquestra. Tocou em outros conjuntos na década de 40, e foi também músico de estúdio, acompanhando cantores. Por volta de 1946 voltou a ingressar na Tabajara, que foi a primeira a gravar uma composição de sua autoria, o clássico choro "Sonoroso".
Depois de estudar teoria musical com o maestro Koellreuter e tocar em boates, fez uma turnê pela Europa, na década de 50. De volta ao Brasil, trabalhou como arranjador na Odeon e na TV Globo. Outras de suas composições também se tornaram clássicos do Choro, como “Eu Quero É Sossego”, “Saudades de um Clarinete”, “Gilka’, sem esquecer de “Catita”, música muito importante para o pessoal do Buraco. “Ele revolucionou, modificou a fórmula do Choro, uma pessoa de altíssima importância. K-ximbinho “jazzisticou” o Choro, era um cara à frente do seu tempo, K-ximbinho nosso... Se ele fosse carioca teria uma estátua, um “Instituto K-ximbinho”, esbraveja Camilo Lemos.
MATÉRIA PUBLICA NA REVISTA BROUHAHA, EDIÇÃO Nº 12

domingo, 21 de dezembro de 2008

ENTRE HIPÉRBOLES E SUPERLATIVOS: JORDÃO






Imagens: Danilo Guanabara

Quem passa pela movimentada Avenida Hermes da Fonseca não tem outra coisa a fazer, senão contemplar um gigante Anjo Azul que, de tão imponente e chamativo, virou ponto turístico da cidade. Construído pelo artista plástico José Jordão Arimatéia, 58, para ser a principal peça do marketing de uma galeria de arte homônima, o Anjo Azul, feito, basicamente, de gesso e sustentando uma envergadura de cerca de 10 metros de altura, consumiu pouco mais de dez meses para ser concluído. Depois que ficou pronto, é comum ver as pessoas pararem para tirar fotografias ao lado da obra, cuja grandeza parece ser a maior virtude.


O autor dessa obra é autodidata. De origem humilde, filho de lavadeira e cozinheira, muito cedo, ainda com oito anos de idade, Jordão já tinha uma certeza, queria ser artista. “Eu gostava mesmo era de cantar. Eu queria ser artista de qualquer coisa, mas não deu pra ser cantor. Ai um dia, lá no campo do Rio-Mar... tinha chovido. Tava uma planície bonita... comecei a desenhar no chão”. Foi exatamente nesse dia que o escultor deu de cara com o labor criativo que o acompanha até hoje. “Vinha passando dois cidadãos e um disse assim: ‘Esse menino é muito bom desenhista. Parece coisa do artista Newton Navarro”. Com essa frase, Jordão resolveu definitivamente que iria ser àquilo. Iria ser artista.


De como a gente se torna o que a gente é


Depois do singelo desenho na areia do campo de futebol, ele não parou mais. Em pouco tempo já desempenhava o ofício de Santeiro. Fazia as figuras divinas com as sobras de cimento da fábrica de pré-moldados onda trabalhava. “Eu sempre dava um jeito da massa sobrar. Tinha um quartinho nos fundos da fábrica que foi meu primeiro ateliê. Ninguém sabia de nada. Quando o dono descobriu, primeiro levei uma bronca, mas ele percebeu algo e acabou permitindo que continuasse a criar”.

Com o tempo, Jordão foi se moldando até se transformar em escultor e entalhador. Cada tipo de trabalho foi conseqüência do outro. “Depois do ‘entalhe’ foi que eu me soltei. Comecei a viajar e a fazer exposição... a primeira foi numa bienal lá em Fortaleza... acho que em 1974. Levei dois ‘entalhe’, duas esculturas e ganhei dois prêmios”. Jordão continuou viajando. Foi para São Paulo e para o Rio de Janeiro, onde trabalhou para um estrangeiro que lhe arranjou uma viajem para a França. “Passei 15 dias em Paris, mas acabei nem conhecendo muita coisa... sabe como é: não estava bem enturmado”, lembra.
De volta ao Brasil, Jordão confessa que tentou viver de arte na região sudeste. Ele relata que até conseguiu, mas como a família “não cortou o cordão umbilical”, acabou voltando mesmo foi para Natal. “Quando minha família não quis ir comigo ao Rio preferi não voltar. Um erro que até hoje me arrependo. Se fosse hoje não pensaria duas vezes: iria sem olhar pra trás. Perdi toda minha inspiração e deixei de produzir”, confessa com olhar remoto”.

Jordão, o errante

Assim como as viagens que fez por aí, a relação de Jordão com a arte também é repleta de idas e vindas. Na sua história de vida, o artesão confessa que o alcoolismo foi uma personagem persistente em várias ocasiões. “Já deixei muitas vezes a arte. A bebida faz a gente perder a criação. Eu trabalhava só pra manter o vício. Um trabalho que valia quinhentos, eu vendia por duzentos, né... a sede era maior”. Mergulhado num poço que parecia não ter fim, Jordão ficou 15 anos no limbo sem criar uma peça sequer. “Perdi a criatividade, a inspiração. Por desgosto mesmo! Vergonha da sociedade”. Depois do período nebuloso de auto-exílio, Jordão deixou de beber e se casou de novo. Apagou de vez o capítulo dedicado às bebidas. “A arte me chamou de volta. Hoje eu vivo pro meu lar, minha esposa e minha filhinha” (Jordão conta isso segurando a pequena Lua no colo).

Modus Operandi

Como criador de formas diversas, o artesão deixa transparecer certa vaidade em relação às suas obras. Sobre o colosso angelical, o artista plástico se diz bastante satisfeito com o resultado. “Ah, eu gostei demais. Ficou do jeito que eu achava que deveria ficar”. A história da produção da escultura é muito curiosa. O projeto chegou a mudar algumas vezes. Inicialmente programado para ter dois ou três metros, a obra ganhou volume de uma hora pra outra. “Anchieta (Dono da Galeria O Anjo Azul) chegou lá em casa e me pediu pra fazer uma escultura. Ele disse que queria uma escultura grande. Eu perguntei: E o tamanho? - Ele disse: uns três metros. Comecei a fazer. Depois ele quis que eu aumentasse. Anchieta disse, “Eu quero uma graaaaande. Não sei nem de que tamanho”.
Como de costume, na hora de elaborar suas obras, Jordão dispensa qualquer tipo de esboço. Para ele, “a arte não precisa de projeto”. E com o “pequeno detalhe” do tamanho resolvido, Jordão botou a mão na massa, ou melhor, na argamassa. “Anchieta disse: “Vamos fazer um desenho”. Ai eu disse: “Vamo fazer sem. Com desenho demora muito”. Mesmo com liberdade para fazer do jeito que quisesse, e com o Anjo praticamente ‘nas alturas’, Jordão teve que vencer alguns percalços. “Quanto tava lá em cima, lá se vem confusão... a prefeitura chegou alegando que a estrutura podia cair”. Foi preciso, então, arrumar um engenheiro para tocar a ‘obra’. “Aí o engenheiro veio, calculou e disse: “Vamos botar mais ferragem”. Ai colocamos mais ferragem... aí eles (Agentes da Prefeitura) pararam de vir””.

A arte como coisa pública e outras obras

O ensaio ‘A origem da obra de arte’ foi publicado pela primeira vez em 1977, pelo filósofo alemão Martin Heidegger, considerado um dos mais importantes pensadores do século XX. Abordando a natureza e o enigma da obra de arte, Heidegger defende que obra se faz a partir de uma tríade: artista, obra e um terceiro elemento – o observador, aquele que olha para a o criador e a criatura. Instintivamente, Jordão acaba confirmando essa teoria. “A obra tem que ser pública... eu gosto de fazer arte para o povo”.

Contrariando uma premissa básica de todo artista, que só revela a obra quando o trabalho se encerra, ele oferece o dia-dia de suas invenções de artífice. Revelando uma sensibilidade rústica no traçado, o Anjo Azul, por exemplo, pôde ser acompanhado durante toda a manufatura por àqueles que transitaram pela Hermes da Fonseca entre os meses de dezembro de 2006 a meados de outubro de 2007. As obras de Jordão, além da grandiosidade e do labor feito ao alcance dos olhos observadores, carregam histórias que, a cada vez que são recontadas, tomam ares de anedota. Foi assim também com uma obra que tem como personagem o Rei do Baião e um popular santo brasileiro.

Engendrada ao ar livre, o trabalho compreende algumas alegorias do imaginário e da cultura nordestina como a religiosidade, a música e o povo. “Chico Brilhante era doido pra fazer um trabalho grande. Mas o trabalho grande que ele queria era um santo. Frei Damião”. Jordão retrucou logo de cara, dizendo que Frei Damião não fazia. “Pra fazer só Frei Damião eu não quero fazer”. O artista plástico ainda arrematou com o chiste: “Bata uma fotografia do Frei e bote aí na parede”. Jordão, defendendo uma obra mais elaborada e contextualizada, se ofereceu para projetar uma coisa diferente. “Me dê uns três meses pra eu pensar o que é que eu vou fazer, que aí a gente faz”.Com o prazo expirado, Jordão voltou ao encontro de Chico Brilhante. “Eu to com o trabalho feito aqui na minha cabeça”. Chico quis saber qual era o projeto do artista. “Eu vou fazer um Luiz Gonzaga, por que ele gostava muito de Frei Damião. Aí eu juntei... Luis Gonzaga com Frei Damião... Luis Gonzaga tocando a sanfona... arrastando seu povo ao encontro de Frei Damião, olha que negócio bonito?”, se diverte Jordão rememorando a resposta que deu à Chico Brilhante. Para quem tem curiosidade de ver Luiz Gonzaga e sua trupe indo até à presença de Frei Damião, basta um dia, encher o tanque ou calibrar os pneus do carro. Digo isso porque, Jordão fez tudo esse trabalho em pleno um posto de gasolina, num bairro de Natal.


Mais algumas

E não é só o Anjo Azul e nem Luiz Gonzaga e a trupe de Frei Damião que ostentam um tamanho fora do comum. A maioria das obras de Jordão apresenta um aparente ‘complexo de superioridade’. Todas elas são enormes, assim como o Pescador que enfeita a Praça da Praia da Pipa desde 2005. “Eu passei um ano morando em Pipa. Aí um dia, o dinheiro tava se acabando... resolvi oferecer meu trabalho ao prefeito. Ele queria um santo. Aí disse que em Pipa tinha muito crente e uma “imagem” poderia dar confusão. Fiz um pescador... pescador não tem religião”. A política da boa-vizinhança de Jordão lhe rendeu mais alguns frutos. Além do pescador, Jordão acabou fazendo a figura de um enorme golfinho que enfeita a frente da Prefeitura de Tibau do Sul.

É de autoria de Jordão o maior painel construído em concreto da América Latina. Localizado no prédio residencial Rio-Mar, o trabalho, que é uma verdadeira façanha, está devidamente registrado no livro de recordes. Mas quem vê os 1000 metros quadrados de obra de arte pronta, não imagina o trabalho que deu. “Quando eu cheguei lá na construtora dizendo que eu queria trabalhar no prédio, acharam que eu era um hippie, um louco. Depois de um chá de cadeira foi que me receberam e eu disse que queria trabalhar as fachadas do prédio”. Conversa vai, conversa vem, Jordão conseguiu vender o projeto.

Com a palavra empenhada pelos representantes da construção, o artista fez algumas exigências. “Eu disse: Eu quero uma bancada nova, lápis. Quero papel bom... de diversos tipos... só papel de linha pesada”. Os pedidos de Jordão foram atendidos. Depois de 15 dias projetando, o artista pediu para que fossem buscar o esboço do trabalho. De volta ao escritório da construtora, pediram para Jordão mostrar o que ele tinha feito. “Vamos ali na mesa de reunião”, disse um engenheiro. Sem a menor cerimônia, o artista explicou que ali não caberia. “Tem que ser lá fora, na rua... Aí eu saí estirando o projeto no meio da rua... do tamanho que era o edifício, era o tamanho do projeto”. Passados mais de 20 anos da elaboração do painel, Jordão acredita que este trabalho foi obra do acaso. “Foi sorte demais. Você levar um projeto desses sem trabalhar na firma, foi muita coragem”.

Um outro lugar onde é possível se esbaldar com as obras de Jordão, dada a grande concentração de trabalhos realizados pelo artista é o Centro de Convenções de Natal. Ao todo são seis painéis: o externo, de aproximadamente sete metros de altura por 25 de comprimento, retrata a paisagem costeira com coqueiros, cajus, jangadeiros e deusas das águas. No saguão de entrada, como não poderia deixar de ser, estão dando as boas vindas um enorme pescador e uma rendeira. Feito com cimento, o material preferido de Jordão, existe ainda um trabalho com motivos indígenas dominando uma das paredes. Na ala central, dois painéis de latão: de um lado um retrato do cangaceiro Lampião, do outro as salineiras de Macau. “Mas o que eu mais gosto ali no Centro é o Bumba meu boi. Ficou muito bonito”, conta Jordão orgulhoso.

Palavra de mestre


Nas suas andanças artísticas, Jordão teve a oportunidade de trabalhar com nomes consagrados como Newton Navarro e Dorian Gray Caldas. O maior artista plástico em atividade do Rio Grande do Norte defende que a obra de Jordão ‘dispensa adjetivos’. “Tenho ele como o mais expressivo escultor. Ele tem uma expressão muito própria. Não imita ninguém”. Além de considerar Jordão como um bom pintor, Dorian o compara à unanimidades da arte mundial. “Ele é da mesma linguagem de Michelangelo, Leonardo (Da Vinci). Tem um traço instintivo... vocacionado. Uma pena ele não ter condições de trabalhar com materiais nobres. Ele merecia trabalhar com mármore... bronze...”.

O reconhecimento do valor como feitor de arte de mão cheia, não se restringe à Dorian Gray. No último mês de outubro Jordão desembarcou na capital do país para participar de uma exposição no Salão Negro do Palácio do Congresso. A entrada solene do Palácio, é destinado à mostras, eventos culturais, lançamento de livros, recepções e celebrações religiosas. Dividindo o Salão com artistas de várias regiões do país, o artífice nascido no Rio-Mar revela que a oportunidade de ir à Brasília, surgiu à partir do Anjo Azul. “A senadora Rosalba Ciarlini passou e viu o Anjo, aí me convidou pra ir á Brasília. Achei bom, mas o trânsito faz muito barulho. Prefiro Natal”, analisa Jordão.

Produzindo com a mesma freqüência de antigamente, Jordão conseguiu juntar dinheiro e comprou uma casinha simples na Rua do Motor com direito à vista para o mar e quintal íngreme com muitas árvores frutíferas — no mesmo bairro onde desenhou na areia e vendeu seus santinhos feitos ora de cimento, ora de “argila do padre”. Ele montou um ateliê improvisado nos fundos, onde, cheio de planos, pensa em comprar os terrenos vizinhos para construir sua nova casa e um ateliê maior. Bem maior. Tão grande quanto as colossais esculturas que inventa.


MATÉRIA PUBLICA NA REVISTA BROUHAHA, EDIÇÃO Nº 12



ALECRIM FUTEBOL CHINFRA

O time do Alecrim de 1968 contando com a ajuda de Garrincha (segundo agachado, da esquerda pra direita)


noventa e dois anos no Bairro do Alecrim (bairro famoso pelo seu comércio popular), um grupo de jovens fundava um dos times mais tradicionais de Natal. Ele, o próprio, Alecrim Futebol Clube. Entre esses jovens - quem diria? - , estava Café Filho, talvez o único jogador de futebol do Brasil, quiçá do mundo, a trocar os gramados do esporte bretão pela poltrona confortável – imagino - de Presidente da República. Café Filho era um goleiro mediano. Defendeu as cores verde e branca do clube entre 1918 e 1919 e, depois disso, enveredou pelos “campos” da política e nunca mais saiu de lá.

Depois do goleiro presidenciável, o Alecrim seguia sua rotina de jogos sem muita expressão, até que em 1923 chegava a Natal um sujeito chamado Alexandre Kruze, um pernambucano filho de alemães. Apaixonado pelo futebol, Kruze, além de rádio-telegrafista da Marinha, especializou-se em Educação Física e Desportos (Nomenclatura da época), e naquele ano, o jovem sargento Kruze era transferido para a Cidade do Sol. De uma maneira ou de outra, o cara conseguiu entrar no modesto time do Alecrim, e logo ocupou uma posição de destaque no alviverde.

Falando constantemente em técnica e tática do futebol, Kruze motivou os dirigentes do clube a confiar-lhe uma nova missão: treinar o time do Alecrim. Deu no que deu. Em 1925 o Alecrim levantava o caneco de campeão de maneira invicta, fato inédito entre os clubes de futebol da cidade até então. Como naquela época o Alecrim era formado, basicamente, de negros e descendentes de índios, os caras do ABC e América, que eram times das elites do bairro do Tirol, ficaram putos da vida. No tapetão, o jeito foi dissolver a federação de futebol da época, pra que o campeonato fosse invalidado. Assim foi feito, é mole?


Da bolinha murcha ao tal do batendo um bolão


Os anos foram passando e o Alecrim seguiu jogando uma bolinha mais ou menos. 38 anos passaram até o segundo título, que veio em 1963, com o técnico Geléia, numa vitória contra o ABC (o ABC é considerada a 2ª força do futebol potiguar). Nessa época ainda não havia o “bicho” (grana recebida pela vitória). A grande regalia dos jogadores depois de ganhar algum jogo, era um copo de refresco de maracujá acompanhado de um pão doce. Coisa fina... No ano seguinte Geléia deixou o clube dando lugar a Pedro 40, que garantiu o bi-campeonato contra o mesmo adversário. O ABC passou dois anos sendo freguês do escrete alecrinense. Em 1968, outra façanha, outra chiste do Alecrim. O espírito do time de 1925 baixou no clube naquele ano, porque o esquadrão esmeraldino venceu o campeonato estadual de ponta a ponta. Mais uma vez, invicto! O quarto título do verdão contou com 10 jogos disputados. Sete vitórias, três empates e 24 bolas deixadas nos fundos das redes adversárias. Embalados pela conquista, nesse mesmo ano a torcida do Alecrim ganharia mais um presente. Num amistoso contra o Sport (PE), o gênio das pernas tortas, Mané Garrincha, vestiu a camisa 7 do clube alecrinense e fez a alegria da galera. Apesar da derrota por 1 a 0, aquele 04 de fevereiro ficou para sempre na história do Alecrim.

A Fera verde


A torcida organizada do clube é um caso a parte. Nascida das bebedeiras pelos bares da vida, os Fiéis Esmeraldinos Radicais – FERA - acompanham o time do há mais de trinta anos. Mas verdade seja dita. Além das bacantes bebedeiras inspiradoras, a fundação da Fera teve seu pavio acesso, de fato, após um jogo do Corinthians e América no Campeonato Brasileiro de 1977. Um grupo de ‘alecrinenses’ estava naquele jogo e ficaram maravilhados com o verdadeiro show que os torcedores corinthianos promoveram no Machadão. Vieram da capital paulista os Mosqueteiros do Timão, os Gaviões da Fiel, Coração Corinthiano e a Camisa 12. A mistura foi essa: bar + cerveja + Corinthians = Fera.

Na década de oitenta, um dos torcedores mais fanáticos que a FERA tinha, era um cego. Chico Araújo ia “ver” os jogos munido do seu radinho de pilha, não perdia uma única partida que fosse. Isso sem falar no berrô, no berrô que o Armando deu, outro que comungava verbalmente da liturgia. alecrinense. Em dias de jogo, reza a lenda que o grito de “juiz ladrão” de Armando ecoava o Machadão inteiro. Vai saber né? É por essas e outras que o Alecrim F.C. é, sem dúvida, um dos times de futebol mais cheio de anedotas que apareceram na face da terra. De goleiro presidente á torcedor cego, até Garrinha tirou uma onda pelos gramados alecrinenses. Vida longa ao escrete esmeraldino.
MATÉRIA PUBLICADA NO FANZINE LADO [R], Nº 07

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

DAS IMAGENS DA MOÇA CAETANA


Foto: Herácles Dantas


A fotografia tem a capacidade de concentrar um mundo num instante. Mais do que isso, para alguns pensadores a fotografia é a metáfora humana da busca pela imortalidade. Poderia o instantâneo vencer a passagem do tempo? Então o que dizer de fotografias de pessoas mortas? Seria o aprisionamento do corpo inerte e sem vida? As pessoas fotografadas estariam mortas para sempre? Não sei se foi pensando nisso que o fotógrafo policial Herácles Dantas deu “vida” ao seu hobby macabro.


Acontece que Herácles, um sujeito espontâneo, baixinho, silhueta avantajada e de bigodes fartos, coleciona fotografias de pessoas mortas. Fino observador da morte alheia, o fotógrafo parece manter um curioso pacto com a “indesejada”. Sempre consegue os melhores ângulos, enquadramentos perfeitos e mudanças de perspectiva impossíveis para muitos.

Suas lentes já registraram as poses de gente morta de morte morrida e poses de gente morta de morte matada. O sádico arsenal fotográfico é composto de mais de 400 cenas de moribundos. A miscigenação vai de ladrões varados de bala, homens atropelados por trens, à criancinha enterrada na areia pela irmã esquizofrênica. Herácles só não tem a sua própria foto, a mais emblemática e, por isso mesmo, impossível de ser feita. Seria ele capaz de um suicídio fotográfico? Não sabemos. Mas ao contrário do que a funesta coleção possa incitar, o fotógrafo, que tem nome de semi-deus, é gentil e galhofeiro.


Com um bom-humor “negro”, digamos, Herácles guarda na memória dezenas de causos e anedotas que dão conta das centenas de mortes registradas, como no dia em que fizeram um menino se fingir de morto para forjar a fotografia de um bandido que a polícia tinha dado cabo. Na verdade, a peripécia saiu da cabeça do repórter que o acompanhava. Como o IML já havia dado destino ao moribundo, o repórter alheio a qualquer conceito de ética não contou conversa. Impeliu Herácles a fazer a foto.

No outro dia, o jornal concorrente estampava na capa a fotografia do bandido crivado de balas e todo ensangüentado. O editor-chefe chama Herácles e o repórter na sala e pergunta sobre qual seria a verdadeira foto. O repórter não vacilou e tascou o seguinte mote: “Na verdade a foto verdadeira é a do outro jornal. Mas nós fizemos a ‘reconstituição’ do acontecido”. Histórias tragicômicas como essa são comuns na vida do trampolineiro e desmedido fotógrafo, que já se vestiu de policial para ter acesso à cena do crime.


Espirituoso, o fanfarrão Herácles confessa ter mais apego pelas fotografias do que pela sua própria esposa, ela que “morre” de ciúmes das lúgubres “cópias fiéis”. Mas quanto a esse assunto, o fotógrafo não titubeia. Se precisar, faz novamente uma permutação de esposas - ele que já está nas suas terceiras núpcias. As fotografias dos mortos, assim como seus filhos, são os únicos bens inalienáveis que possui.

E assim ele segue. Buscando o inédito. Colecionando e aprisionando vidas através de suas lentes objetivas, com a mesma simplicidade das crianças que guardam para sempre os seus brinquedinhos Kinder Ovo, ou dos cinéfilos que reúnem suas entradas de cinema. Aos desavisados, cuidado com os cliks de Herácles.
MATÉRIA PUBLICADA NO FANZINE LADO [R], Nº 08

DESBUNDE CULTURAL NA CIDADE DO SOL

Cedo ou tarde as mudanças chegariam. E chegaram mesmo. No final da década de 70, pelo menos num pedaço de praia chamado até então de Praia do Meio, as transformações foram alucinantes. Se de um lado ficava Areia Preta como um espaço natural dos mais abastados, do outro, ficava a Praia do Forte com suas piscinas naturais e a boa família natalense passeando pra lá e pra cá. A Praia do Meio, na sua condição de ser do meio, deixava que viessem a ela as classes mais baixas e a juventude que precisava de um lugar para extravasar.
Eram tempos de “power” e “flower”, bocas de sino e biquínis de crochê. Mutantes, Caetano e Gil. Discos dos Beatles, Pink Floyd e dos Rolling Stones evaporavam das prateleiras. Um verdadeiro ponto de ebulição extrapolou as areias quentes daquela beira-mar, agora um sinônimo de efervescência. Nascia ali a Praia dos Artistas. Uma faixa de terra banhada pelo Atlântico que passou a receber com mais vigor, dezenas, centenas, milhares de anônimos que queriam um lugar ao sol. A jeunesse dorée, antenada, possibilista, como diz o artista plástico Marcelus Bobs, estava concentrada naquele espaço. Eram universitários, atores, dançarinos, artistas plásticos, poetas, ensaiando o que ia ser a época de ouro da cultura da cidade.

Movimento hippie, baseados, “Eu sou apenas um rapaz”, “Como nossos pais”... Em frente ao Bar Caravela, de microfone em punho e soltando gírias pra todo lado, Big Terto (Tertuliano Pinheiro) organizava campeonatos de surf que deixavam a praia com um colorido diferente. Moças com pouquíssima roupa e rapazes fogosos disputavam cada metro quadrado do lugar. Bares como o Tirraguso, o Artmanhas, a Casa Velha se enchiam de rostos jovens.
E não parava por aí. Tinham as barracas de praia, ainda na areia, como a famosa “Barraca da Marlene”, para quem quisesse sentir a brisa do mar mais perto. “Era nas barracas que nos reuníamos para compor as melodias do Gato Lúdico, eu, Jaime Figueiredo, Carlos Lima e Claudio Damasceno. Lá vivíamos noitadas acompanhados do violão, dos mixes de cachaça com cerveja e tiragosto”, lembra o arquiteto e artista plástico Vicente Vitoriano. As barracas acabavam sendo, portanto, verdadeiros locais de criação, para os membros do Gato Lúdico, uma grupo músico-teatral que marcou a cena natalense à lá Língua de Trapo, uma espécie de Mamonas Assassinas da época.
Enquanto a Praia era o terreno fértil do desbunde hippongo natalense, no Brasil, a Ditadura Militar queimava ainda seus cartuchos vigiando o povo e censurando as artes por aí. Em 1977, o Presidente General Ernesto Geisel, com seu famigerado Pacote de Abril, teve a brilhante idéia de dissolver o Congresso Nacional e legislar por ele mesmo. Esse foi o estopim que instigou naqueles jovens um abalo inquisidor. O primeiro deles foi o poeta, escritor e artista plástico, Eduardo Alexandre. “Naquele momento, foi que me veio o impulso de ir ao muro e protestar contra todo aquele absurdo. Comecei a preparar material para as primeiras exposições, a partir de oficinas que fazia no quintal lá de casa, com o pessoal da minha rua e adjacências do bairro do Tirol.”
Galeria do Povo
A partir dali, Eduardo Alexandre e outros inconformados deram vida a um dos mais importantes movimentos de contestação política e engajada através da arte. A Galeria do Povo, como era conhecida, era um movimento artístico a céu aberto, que realizava exposições espontâneas de poesias, crônicas, artigos, recortes de jornais e revistas, artes visuais, esculturas e faixas de manifestações políticas; e tudo isso, ali na Praia dos Artistas. Com mais de 200 exposições entre os anos de 1977 a 1986, nos muros da Galeria do Povo travou-se uma luta permanente contra a ditadura militar, expondo o descontentamento do povo com as suas iniciativas e juntando-se a lutas como a da retomada da caminhada democrática, da anistia, das eleições diretas, entre outras tantas. As exposições eram realizadas aos sábados e domingos a partir das 10h, “e nós não repetíamos trabalho, obrigando o pessoal a produzir sempre, para que tivessem seus trabalhos expostos”, lembra Alexandre.
As exposições eram, portanto, sempre diferentes, inéditas, e normalmente traziam uma palavra de ordem em forma de faixa de manifestação ou em letras recortadas de papel e afixadas ao muro. “Por uma democracia verdadeira, por um Brasil feliz!”; “Ao povo brasileiro, o direito de escolher os seus próprios destinos: pela convocação da Assembléia Constituinte!”, por exemplo.
O caráter político da Galeria era tão evidente, que os artistas criaram o Partido do Povo Brasileiro, mas, enganada pela verrina demagoga, a agremiação acabou sendo surrupiada. “Chegamos inclusive a criar um partido, depois registrado por um grupo que não oferecia a menor confiança, da mais legítima direita, a mando do então presidente Zé Sarney, que quis transformar o partido de sustentação da ditadura, a Arena, neste Partido do Povo Brasileiro que criamos aqui. O registro foi efetuado por um testa-de-ferro, a mando de Sarney”, esbraveja Eduardo Alexandre.
Citar os nomes dos participantes que passaram pela Galeria do Povo, Eduardo diz “que é certeza de muita omissão”. Mesmo assim, o artista plástico insiste: “Lembro de Fernando Gurgel, Assis Marinho, Novenil Barros, Nelson Quinderé, Nival Mendes, Ênio de Góes, João Natal (assinava João Maria, à época), Léo Sodré, Marcelo Fernandes, Marcelus Bob, Flávio Américo Novaes, Pedro Pereira, Valderedo Nunes, tantos, estes nas artes plásticas. Giovani Sérgio, Marcus Ottoni, Argemiro Lima, João Maria Alves, na fotografia foram alguns destaques. Marize Castro, Volontê, João da Rua, Flávio Resende, alguns dos poetas que mostraram ali seus versos pela primeira vez. Lembro também nomes como os de Sofia Gosson, Aluízio Matias, Dorian Lima, Venâncio Pinheiro, João Barra, Harrison Gurgel, Deoborah Iskin Costa, hoje Milgran, Mário Henrique Araújo, Talvani Guedes da Fonseca, Jota Medeiros, Clotilde Tavares, Carlos Jucá, Alamilton Lima, Marconi Ginani, Carlos Astral, João Gothardo Emerenciano, os irmãos Lola, Fon, Eustáquio... É muito difícil lembrar de todos”.

Seja como for, nos muros da Galeria do Povo foram pregadas idéias de contestação e conscientização política através da arte. “A liberdade que exercíamos na Galeria do Povo, contrariamente àquela repressão toda, era um apelo e um incentivo à grande participação que o movimento alcançou”, deixa claro Eduardo Alexandre. Terra de poucos artistas até então, ou pelo menos, não conhecidos, com a Galeria do Povo, “estes foram surgindo às dezenas, multiplicando-se em todas as áreas de manifestações artísticas”. Com a Galeria funcionando todos os finais de semana no local de maior afluência popular da cidade, que era a Praia dos Artistas, “o surgimento de outros eventos ocorreu e muitos grupos se formaram a partir daqueles encontros de pé de calçada”.

Festiva do Forte

Na Praia dos Artistas, a picardia inconformada dos vários tipos que circulavam por lá continuava sendo uma pedra no sapato dos incautos. Enquanto isso, num apartamento dividido por Sandoval Fagundes, artista plástico paraibano, com o músico potiguar Luiz Lima - Lola para os mais chegados – era discutido, numa tarde de 1978, o que seria o embrião do Festival do Forte, um evento que acabou sendo o epílogo da tamanha ebulição contra-cultural que era a cidade no final de década de setenta. “Foi conversando com Sandoval que surgiu a idéia de fundar uma “cooperativa de artistas”, partindo da constatação da total dificuldade que encontrava quem pretendesse viver de, ou mesmo simplesmente fazer, arte em Natal”, lembra Luiz Lima.
Ele relata que o objetivo inicial era a obtenção de alguns meios de produção, como aparelhagem de som, equipamento para serigrafia, entre outras coisas. A vontade deles era que se alcançasse “uma autonomia em relação aos órgãos oficiais da cultura”, já que, segundo Luiz, havia uma dependência excessiva, sobretudo, quando queriam “realizar algum trabalho, como um show ou uma exposição de pintura”. O festival surgiu, então, como um ponto de partida, um modo de lançar o projeto da cooperativa. “Deveria ser um festival no sentido de festa mesmo, livre da idéia da competição e prêmios, mas uma ocasião onde artistas de diferentes áreas pudessem se encontrar, mostrar seus trabalhos, como numa quermesse, uma feira”.

O nome seria Festival de Artes do Natal, conforme foi escrito no primeiro cartaz. Desenvolvido graficamente e impresso em serigrafia por Sandoval Fagundes (a partir do desenho que Luiz Lima havia feito), o panfleto tinha o número 1978, o mar, um barco à vela e a pomba branca da paz, numa clara referência a Woodstock. “No cartaz se lia ainda, promoção: Popularte - o primeiro nome que demos à cooperativa -, alternativa às artes nativas. Foi com essas idéias que começamos eu (Luiz Lima), Sandoval e Carlos Gurgel, que tinha aderido ao projeto, a organizar o evento”. Entre os muros, guaritas e calabouços da Fortaleza dos Reis Magos, o Festival começou a todo vapor naquele 30 de dezembro de 1978. Construído à base de óleo de baleia, bronze e pedras de granito vindos do além-mar, naquela noite de lua cheia, as muralhas centenárias do Forte deixaram de ser mais um ponto turístico e comungaram de um outro propósito: celebrar as artes e servir como um ponto de convergência daqueles que não eram “caretas”.

“De fato, como depois ficou evidente, não poderia haver um local mais adequado para uma proposta como aquela, dentro daquele espírito libertário que ainda perdurava na época, que nos inspirava e que pretendíamos aferir ao festival”, analisa Luiz Lima. Contando com música, dança, artes plásticas, artesanato, fotografias apresentações teatrais e até comida macrobiótica, a primeira edição teve a duração de um dia apenas, mas deixou muitas histórias pra contar. “O movimento foi uma verdadeira epopéia... uma odisséia... tornaram a realidade uma loucura”, diz o poeta e escritor Carlos Gurgel esfuziado. Com o propósito de acabar com a inércia cultural que havia no lugar, o Festival, segundo Gurgel, “dava uma trabalheira danada pra organizar”. “A gente criou uma dinâmica tão incrível pra que aquilo acontecesse. A gente passava o ano todo elaborando, horas e horas. Havia uma cumplicidade dos artistas com a arte”.

No ano seguinte, o Festival acabou sendo realizado no Centro de Turismo. Em 1980 não houve festival, que voltou a plenos pulmões no ano seguinte, já com versão de três dias e, reunindo novamente todas as artes. As exposições foram ampliadas e levadas agora às salas internas da Fortaleza dos Reis Magos. Daquela ocasião, Eduardo Alexandre conta que “foi um sufoco conseguir colocar os quadros naquelas paredes de pedra”. Em 1982, vendo que o Forte já estava ficando pequeno para o público, Eduardo conta que sugeriu que parte dos espetáculos fossem realizados em um circo a ser montado diante do Forte, mas lembra que a Fundação José Augusto deu parecer contrário, “alegando que o solo arenoso e o vento não deixariam a lona em pé”. Os Festivais continuaram a ser realizados na Fortaleza por mais algum tempo, até ser levado para o Bosque dos Namorados e depois Cidade da Criança, onde foi realizada sua última versão.

Personas
Realizado sempre nos dias de lua cheia, o Festival do Forte, como ficou genericamente conhecido o Festival de Artes de Natal, teve ainda muitos outros personagens. “Lembro de Jota Medeiros entrar trotando num cavalo... teve Edílson Dias, um ator, que apresentou um monólogo completamente nu!”. De Carlos Gurgel, Luiz Lima é quem conta que dois ou três dias antes do Festival começar, Gurgel sumiu do mapa sem mais nem menos. “Quando a tensão estava muito alta pela quantidade de tarefas e problemas relativos à produção ainda por resolver, Gurgel de repente sumiu, escafedeu-se completamente. Só foi aparecer depois do festival terminado, se não me engano. Mas ele se redimiu, totalmente, quando organizou praticamente sozinho a edição seguinte do Festival”.
Dono de uma fita de vídeo que talvez seja o único registro audiovisual do Festival do Forte, o músico Carito, hoje líder dos performáticos Os Poetas Elétricos, lembra com saudade da participação que teve no Festival com a banda de rock Fluidos. “A gente fazia parte de uma cena inaugural do rock potiguar. E esse festival foi importante pra a gente e, acredito que a gente pro Festival, por que naquela época existia uma espécie de divisão entre Mpb e Rock. Havia uma certa resistência ao Rock”. Além de ter a chance de ampliar o público dos Fluidos – uma banda ‘porrada’, nas palavras do músico - , Carito recorda que a performance do grupo agradou o público. “A gente chegou mandando ver, fazendo muita invencionice... e pra a galera que tinha um link maior como a Mpb, a gente causou um choque, foi bem interessante...”.
Na edição de 1984, ano em que o Fluidos se apresentou pelos espaços seculares do Forte, a ditadura militar dava o último suspiro antes do mergulho final. E do tempo da censura e das patrulhas ideológicas, Carito não se esquece de um fato inusitado horas antes da apresentação no Festival. “A gente teve que levar as músicas lá na Censura, e tinha uma delas que se chamava ‘A revolução do Brote Seco’. Era uma espécie de crônica irônica, uma linguagem de humor... guitarra crua... e a palavra “revolução” não era permitida. Tivemos que explicar o porquê do uso da palavra “revolução” e ele deixou passar, mas como o Censor era carioca e não sabia o que era ‘brote seco’, ele disse: Tudo bem. Revolução está explicado, mas o que diabos é brote seco?”. Hoje, Carito se diverte com o chiste do Censor e satiriza: “O brote seco acabou se tornando uma coisa subversiva”.

Para o evento, vinham caravanas de outros estados, como Paraíba, Pernambuco e Bahia. Luiz Lima lembra que a patuléia era “fundamentalmente composta de jovens, estudantes malucos e caretas da classe média de Natal e um percentual de “ripongas”, que eram uma espécie de versão brasileira dos hippies americanos dos anos 60; tipos de estrada, vivendo de artesanato e tal.” Pelos palcos dos Festivais do Forte passaram várias atrações de peso. De Jards Macalé, Raul Seixas, Jorge Pá Pá Pá, Geraldo Califórnia, Gil, Jorge Mautner, ao grupo teatral e performático Gato Lúdico, se estendendo pela poesia alternativa do Aluá, até Chico César e a trupe Jaguaribe Carne deram o ar da graça pelo Festival. Sobre Jards Macalé, o jornalista e agitador cultural Yuno Silva é quem ‘reza’ uma lenda ainda passada de pai pra filho. “De passagem pela cidade, o Macalé chegou para a apresentação e foi ficando, ficando, ficando e, nessa brincadeira, foram uns dois meses. Na casa de um, de outro, noites e dias regados a muito álcool, nicotina e cannabis. Sei que ninguém agüentava mais e tiveram que pedir pra alguém da família vir buscar”.

Um verdadeiro divisor de águas no cenário alternativo da cidade, o Festival do Forte foi a crista movente da onda. Um espaço de criação e novas possibilidades. “Eu acho que é uma época que ta lá – diz Gurgel minimalista - pra mim representa um tesouro... foi um marco... uma referência”. Sobre a possibilidade de se organizar um novo festival, ele diz que “seria legal juntar essa galera, mas reeditar um evento com aquela fisionomia... acho difícil. A gente cumpriu um papel. As pessoas se debruçaram mais sobre o fazer artístico. E eram os anos setenta, né? Essa revolução total. Sexo, drogas e rock and roll. Uma época de vitalidade. Se fosse pra fazer outro festival, tinha que ser como naquela época. Uma coisa meio aquariana”, eis o mote.

Parou por quê?
Cedo ou tarde as mudanças chegariam. E chegaram mesmo. O tempo passou e criou-se um hiato dentro da contracultura potiguar. O músico Luiz Lima, que hoje vive na Europa, analisa com olhos antropológicos todo esse cenário. “De lá pra cá, os tempos definitivamente mudaram, mas acredito que sejam sempre essas iniciativas e expressões espontâneas de liberdade, relativas a cada época, que impulsionam, que dão vitalidade ao processo cultural”. Carlos Gurgel acredita que depois dos Festivais, “houve uma certa dispersão artística na cidade”, só não sabe dizer o ‘por quê’. De todo modo, ele sintetiza os Festival nessas palavras: “Acho que o festival teve uma intenção. Desencadear essa inquietação. Era uma celebração, uma coisa nova, essa coisa híbrida, de convergir para o mesmo lugar várias manifestações... Estabeleceu na cidade essa discussão: o que é arte? O que é poesia, o que a música pode representar?”.
E a Praia dos Artistas? Antes um ancoradouro de poetas, cantores, atores, artistas plásticos e outros gêneros criadores, há muito não merece ser chamada assim. Sem falar que as prioridades também mudaram. Veio a família, as responsabilidades, o capitalismo selvagem, o gel com brilho, a poluição e o peso de ser engolido pelo famigerado sistema. Mas como diz o artista plástico, sempre portando bigode e cabelão liberto, Marcelus Bob, “os tempos de Festival do Forte e da Galeria do Povo na Praia dos Artistas deixaram saudades, mas ainda temos magos circulando por aí”.
MATÉRIA PUBLICADA NA REVISTA BROUHAHA, Nº13